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Tendências de movimentação de cargas apontam oportunidades de novos negócios
Fonte : Segs/Ana Flávia Alberton

Em um cenário marcado por pedidos menores, mas com uma frequência maior de entrega, discutir as tendências para a movimentação de cargas torna-se fundamental para vencer o grande desafio da logística brasileira: equilibrar as variáveis de custo e qualidade de serviço. Pensando na importância desse tema, o Terminal de Contêineres de Salvador (Tecon Salvador), operado pela Wilson Sons, promoveu o IV Seminário de Logística, na Bahia, nesta quarta-feira, para abordar as cargas fracionadas e de projeto, traçando as tendências de movimentação de cargas para o estado da Bahia.

O evento reuniu mais de 200 pessoas, entre armadores, empresários, despachantes, transportadores, gestores públicos e pessoas ligadas à atividade comercial marítima brasileira. “A Wilson Sons e o Tecon Salvador acreditam muito na Bahia e, por isso, temos feito fortes investimentos na região. Nenhuma cidade portuária tem o acesso rodoviário que Salvador tem e isso se coloca com uma vantagem competitiva muito grande”, ressalta Demir Lourenço, diretor executivo do Tecon Salvador.

Para que essas oportunidades sejam aproveitadas de forma consistente, o presidente da Companhia de Docas da Bahia (Codeba), José Rebouças, ressaltou a importância dos investimentos em cabotagem. “É um momento para apresentar as virtudes e também procurar na experiência do setor quais são os caminhos para a melhoria, entendendo os gargalos e avaliando soluções para buscar cada vez mais eficiência dos processos. Precisamos continuar investindo em cabotagem, pois um país que tem 8 mil km de costa não pode ignorar esta estrada feita de mar que tem à disposição e todas as oportunidades que ela oferece”, reforça.

No centro desta discussão está o papel do Tecon Salvador, que se coloca como importante peça para a movimentação de cargas no estado. “Para a Wilson Sons e Tecon Salvador é uma honra promover esse evento para discutir soluções logísticas para nossos clientes e parceiros, uma vez que atuamos em todo o processo logístico do cliente, desde a armazenagem de peças para a instalação da fábrica, passando pela recepção de seus insumos, até o escoamento da sua produção por meio da exportação e cabotagem”, completa Patrícia Iglesias, diretora comercial do Tecon Salvador.

Aos poucos, a cabotagem vem ganhando espaço entre os modais escolhidos pelas empresas, é o que conta o representante do Grande Moinho Cearense, Márcio Fraga. “A cabotagem vem crescendo gradualmente e hoje representa 25% do nosso negócio. Em 2010, ela representava algo em torno de 5 ou 7%. Esse aumento se deve a parcerias com o Tecon Salvador e com os armadores, migrando carga do rodoviário para a cabotagem. Todos saímos ganhando e essa parceria é fundamental para o nosso negócio. O desafio está justamente em equilibrar as variáveis de custo e qualidade de serviço. As tendências de mercado apontam para uma necessidade de reestruturação dos sistemas logísticos, a partir do aumento de volumes transportados pelas empresas e transporte de carga fracionada”, afirma.

Cargas de projeto – O estado da Bahia se coloca com grande potencial para prospecção de novos negócios e o crescimento do setor eólico como uma destas oportunidades. Rui Ramos, executivo da Intercarrier Transporte Internacional, explica que a empresa afretou um navio, o Aliança Energia, para atuar basicamente no carregamento de pás eólicas. “Dentre as vantagens, está o tempo de entrega menor e o risco de avaria reduzido dentro do trajeto de cabotagem”. Para viabilizar a operação, a empresa negociou com o Tecon Salvador e com a Codeba uma série de adaptações nas instalações para viabilizar a retirada de cargas eólicas do Porto de Salvador. “Desde então, já foram retiradas aproximadamente 80 pás do Porto de Salvador e a tendência é que este número continue crescendo. O Tecon se tornou um grande parceiro e a Bahia tem muito potencial para o recebimento de cargas de projeto”, completa.

Na ocasião, Júlio Macedo, representando a Renova Energia, que é líder no mercado eólico no Brasil tratou dos desafios logísticos para a indústria eólica na Bahia. O executivo destaca que a logística eólica possui muitas peculiaridades dentro de sua cadeia e é preciso estar atento para questões como o risco de transporte de cargas superdimensionadas, horários limitados para circulação de cargas e os custos envolvendo o transporte. “A cabotagem traz vantagens em relação ao transporte rodoviário, uma vez que apresenta um menor transit time, maior agilidade na logística de grande volume de cargas e menor risco de avarias e sinistros. Porém, alguns fatores ainda merecem atenção: o maior impacto é em relação ao custo, que fica entre 30 e 40% acima do que é pago no transporte rodoviário, além da disponibilidade de navios reduzida”, alerta.

Na mesma linha, Rui Ramos, lembra que este mesmo cenário para cargas de projeto já foi a realidade do transporte conteinerizado. “Existe uma diferença entre caminhão e navio, a cabotagem é mais cara no que se diz respeito a carga de projeto, mas, conforme se aumenta a demanda de carga, se diminui o custo, assim como ocorreu com os contêineres. Estamos passando por uma fase de redução de custos para o transporte de cabotagem e, por isso, discutir e incentivar tal temática torna-se fundamental”, completou.

O debate sobre os desafios do transporte da carga de projeto também teve a participação de representantes do Departamento de Estradas de Rodagem da Bahia e da Marinav Agência Marítima.

Cargas fracionadas – Outra tendência desafiadora para o mercado é o transporte de cargas fracionadas. Thiago Zucareli, da ADM do Brasil, empresa processadora de alimentos, insumos e produtos sustentáveis, como o biodiesel, contribuiu com a discussão a respeito do futuro da conteinerização das commodities agrícolas no Brasil. “O nosso concorrente é o granel e, por isso, não adianta tentar viabilizar a operação de carga fracionada com custo alto. O principal mercado é o da Ásia e precisamos, com urgência, viabilizar uma linha direta de exportação para a região. Claro que existe um mercado a ser trabalhado na Europa para exportação em contêineres, mas a linha direta para a Ásia se coloca como o nosso maior desafio, uma vez que hoje grande volume de soja, milho e farelo exportado tem como destino o sudoeste asiático”, ressalta.

O executivo ainda lembra que a produção estimada em 2015 na Bahia é de 4,2 milhões de toneladas de soja e 2,8 milhões de toneladas de milho. E é neste cenário que a conteinerização de cargas traz vantagens como o menor fluxo de caixa e de custo de armazenagem no destino, rastreabilidade de carga e recebimento cadenciado. “Ou seja, por se comprar em menores quantidades, é possível realizar melhor controle de estoque e trabalhar de forma mais eficiente, tendo uma menor exposição a volatilidade dos preços de mercado. Porém, ainda precisamos melhorar. Temos alguns pontos de estufagem no país, mas podemos investir ainda mais, há muitas oportunidades no setor. Empresas, armadores, terminais e autoridades precisam trabalhar estas temáticas juntos, para garantir um futuro competitivo no atendimento às demandas”, finaliza.
Data de publicação : segunda-feira, 21 de setembro de 2015

 

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